Júlio Isidro escreve carta ao pai e deixa os Portugueses sem palavras.  No texto ele fala sobre a herança deixada pelo pai, uma herança diferente de todas as outras.

Ele fala ainda do reencontro, ou seja, fala que a sua morte está próxima e que isso o faz pensar muitas vezes no pai.

A seguir, o texto publicado por Júlio Isidro:

“Fiquei rico quando, num dia de Agosto de há trinta anos, me deixou. Estávamos de mão dada.

E continuo a enriquecer todos os dias com o seu legado.

A conta bancária, nem a conheci porque a família reserva uma enorme dignidade perante a perda de cada um dos nossos. O pudor não nos deixou partilhar os seus bens materiais, creio que poucos.

Mas, os princípios e valores guardei-os todos para repartir com as minhas irmãs.

O que eu aprendi consigo, papá.

O menino José Sesinando Mantero da Silva Isidro do Carmo, nascido a 4 de Setembro de 1911, deixou-me um cofre cheio de respeito pelos outros, honestidade da palavra dada, cultura geral, português correcto e indiferente a acordos mais ou menos ortográficos, sensibilidade musical, visão crítica em relação a todos os poderes e um razoável sentido de humor.

Claro que não sei tanto latim e grego como o papá. Também toquei sempre muito mal piano e viola e o papá tocava mais uma dúzia de instrumentos. Gosto, e sei de história, mas da grande e da pequena, o papá é imbatível. E a letra tão bonita nos livros escritos por si no liceu e na faculdade?A minha é, por mim, ilegível. Também não jogo tão bem bilhar como o papá porque cem carambolas seguidas não são para todos. E o ping-pong onde cortava as bolas com o seu lado canhoto? E quando se metia a nadar na Figueira da Foz e ia até às traineiras? Para mim mais de 50 metros fora de pé era uma aventura.

Foi um filho exemplar, um menino muito paciente a posar horas para uma foto de arco na mão

E a memória que tinha sobre o desporto? Sabia tudo, em especial de atletismo, ciclismo e futebol. Dizem que eu sou uma enciclopédia ( lá no Traz p’rá frente chamam-me o Júlio Google) porque não o conheceram, querido papá.

Também herdei a sua simpatia, moderada e educada, pelo Sporting e acho que se está a acompanhar o que se diz e se faz, deve estar muito triste. É o berço, papá, é o berço.

Está bem que levávamos doze horas a fazer Lisboa /Figueira da Foz no nosso Renault Juwa AI-12-27, mas era muito cuidadoso e parava muitas vezes. Mas depois levava-me ao banho com o seu ultra moralista fato, de emblema do leão.

Certo que nunca quis nada com o regime, tinha livros proibidos em casa, falava baixinho com amigos sobre coisas que ninguém podia saber e, por isso, era pouco promovido na Companhia. Acho que tinham receio de ter um diretor que escrevia melhor que toda a administração.

Teve a sorte de casar com a mamã que deitava mão às dificuldades , às vezes tantas, para o deixar ler e escrever. Poderia ter afinado mais pianos e ter escrito mais artigos para jornais para ajudar ao orçamento? Creio que sim, mas confiava tanto na mamã a quem chamava «a minha brites d’Almeida» a padeira de Aljubarrota.

Papá, o 19 de Março é dia do Pai, mas garanto-lhe que penso em si muitos mais dias, talvez porque se aproxima a hora do reencontro.

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Obrigado pela sua riquíssima herança bem diferente de outras que tantos filhos disputam ainda com os pais de coração a bater. Cá em casa não , graças a Deus. Elas sabem que estão a receber a herança comigo presente.

Obrigado meu querido papá.”

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